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Reescrevendo silêncios: a potência criativa de mulheres negras na produção cultural

  • Foto do escritor: IC CULTURA
    IC CULTURA
  • há 26 minutos
  • 4 min de leitura

Quando pensamos na atual presença de mulheres negras em circuitos midiáticos e culturais, é difícil não observar uma tendência de destaque: cada vez mais elas ocupam novos lugares e narrativas nos palcos, nas telas, na literatura, entre outras formas de expressão da arte e da cultura.


Recentemente, a rapper Ebony se tornou a primeira mulher a ser homenageada com a Medalha Tiradentes — a mais alta honraria concedida pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) —, com o reconhecimento e valorização de sua discografia, que enfrenta diretamente temas como racismo, machismo, sexualidade e saúde mental. Conceição Evaristo também protagonizou um grande feito na literatura, com sua obra Olhos d’Água, coletânea de 15 contos que narram vivências de afro-brasileiros, abordando racismo, violências, afetos e protagonismo identitário, sendo escolhida para inaugurar uma biblioteca de livros marcados pela censura ao longo da história, criada pela cantora Dua Lipa, em um momento de repressão política e tensões extremas nos Estados Unidos.


Marcos e ações como essas precisam ser registrados e valorizados, mais ainda quando se nota o histórico de construção e a luta pela ocupação desses espaços. No começo de junho, ao pesquisar sobre o Dia de Combate à Discriminação Racial, pauta que também percorre o fazer cultural e as políticas de incentivo à cultura, tive a surpresa de descobrir que essa foi uma articulação incentivada pela bailarina afro-americana, Katherine Dunham, após ser impedida de se hospedar em um hotel em São Paulo por ser negra, durante os anos 50, quando veio ao Brasil para se apresentar no Theatro Municipal da cidade.


Dunham denunciou o ocorrido à imprensa e recebeu o apoio de intelectuais e artistas brasileiros. Com a repercussão, foi proposta e aprovada pelo deputado Afonso Arinos, a primeira lei a criminalizar a discriminação racial no Brasil, em 1951. Desse modo, fica evidente que, desde sempre, as disputas e mobilizações pela criação de espaços representativos e inclusivos na cultura, passam pelo entendimento de que é impossível existir pluralidade narrativa sem que as vozes que circulam à margem do setor cultural também sejam vistas, ouvidas e possuam poder de agência dentro dos eixos culturais.


Nesse sentido, pensar que as culturas são indissociáveis dos seus territórios e das comunidades envolvidas na sua produção, também envolve considerar como as mulheres negras têm desenvolvido estratégias próprias para que a representação das suas histórias e manifestações culturais possa ser difundida fora dos estereótipos e das restrições impostos.


Sabemos que as culturas, especialmente aquelas que não são vistas, não sobrevivem do discurso. Por isso, amanhã, no Dia da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha, também é necessário olhar para a realidade, para além das exceções: o cenário real ainda é o de festivais de cultura negra no Brasil enfrentando diversas barreiras com relação ao fomento por editais e leis de incentivo à cultura, dificultando a permanência dos projetos ao longo do tempo. Mulheres negras ainda são pressionadas a se destacar constantemente, a fim de obter o mínimo reconhecimento e validação dentro da economia criativa, em meio às dificuldades de se disponibilizar, e articular outros profissionais para a construção de estruturas e eventos que sejam, de fato, diversos e inclusivos.


Ao insistirmos em produções culturais e articulações próprias que valorizam as nossas identidades, compreendemos a necessidade de um esforço coletivo para que não deixemos de existir e ter poder de expressão. Isso porque, conforme apontado por Chimamanda Adichie, ao falar sobre O perigo de uma história única, quando sempre nos deparamos com as mesmas narrativas, corpos e vozes na mídia, nos palcos, e projetos culturais, esse movimento incide na redução dos imaginários possíveis, e até mesmo na reafirmação de limitações que dizem (ainda que não em voz alta), quais lugares e discursos mulheres negras podem fazer circular dentro do contexto cultural.


Projetos como o Mulheres Emergentes, iniciativa composta por mulheres negras da periferia de São Paulo, que fomenta narrativas contemporâneas sobre memória, identidade e representatividade, através da arte urbana, da música e do audiovisual; o Instituto das Pretas, laboratório de inovação social que atua no enfrentamento às violências contra a juventude e às mulheres negras através da construção de soluções de impacto social nas áreas da cultura, da educação, do empreendedorismo e da tecnologia; e o Festival Latinidades, primeiro festival brasileiro voltado às mulheres negras da América Latina, criado em 2008, mostram que a construção independente de espaços de formação cultural se constitui enquanto forma de articulação política e potencialização da memória e do pensamento crítico que fundamentam a existência dessas mulheres.


Além disso, demonstram como os saberes culturais invisibilizados e, ao mesmo tempo, fundamentais à formação e à economia criativa do país necessitam de estrutura, políticas públicas efetivas e ecossistemas que gerem renda, visibilidade e possibilitem a formação de novas produtoras dentro da cadeia cultural. Enquanto mulheres negras, continuamos lutando para criar novos espaços e mobilizar possibilidades de defesa e resistência das nossas narrativas, não apenas para manter essas culturas vivas, mas também para criar novos imaginários, histórias, peças de teatro, músicas, projetos...


Ao estar também em um local que me permite refletir e valorizar os novos respiros, movimentos e criações feitos de mulheres negras para outras, como também criticar o sistema que pouco sustenta essas presenças e agências — não apenas no setor cultural, mas em diversas esferas —, concluo que é uma felicidade poder encontrar vozes semelhantes e, simultaneamente, únicas nos palcos, nos teatros, na música e nos livros.


E concluo também que nada disso teria ocorrido sem nós, insistindo em reescrever silêncios históricos, questionando as estruturas e a falta de políticas públicas efetivas na construção de ecossistemas criativos e formativos. Visibilizantes.


Pessoalmente, agradeço e me vejo nessas potências narrativas e criativas que continuam a agir e a dizer: ainda não é o suficiente.




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