O QUE DAS IMAGENS DE HOJE PERMANECERÁ AMANHÃ?

Por Bia Ramsthaler e Carol Suzuki

No Dia Mundial do Patrimônio Audiovisual, uma reflexão sobre memória, preservação e sobre o papel das imagens e dos sons na maneira como contamos nossa história
Celebrado anualmente em 27 de outubro, o Dia Mundial do Patrimônio Audiovisual foi instituído pela UNESCO como forma de destacar a importância da preservação de registros que contribuem para a construção e a compreensão da memória coletiva. A data remete à adoção, em 1980, da Recomendação para a Salvaguarda e Preservação das Imagens em Movimento, documento que reconheceu os registros audiovisuais como significativos bens de valor cultural, histórico, artístico, científico e educativo.
Mais do que preservar imagens e sons, a salvaguarda do patrimônio audiovisual representa um esforço para garantir que diferentes experiências, acontecimentos e expressões culturais possam ser acessados e compreendidos pelas gerações futuras. Nesse sentido, a data também chama a atenção para os desafios relacionados à conservação, à digitalização e ao acesso a esses materiais, reforçando a necessidade de políticas e iniciativas voltadas à proteção da memória audiovisual.
Mais de quatro décadas depois, talvez a data nos coloque diante de uma questão ainda maior: o que significa preservar imagens e sons quando nunca produzimos tantos registros de nós mesmos?
Filmes, documentários, programas de televisão, entrevistas, registros de manifestações culturais, festas populares, espetáculos, depoimentos, arquivos familiares, vídeos produzidos em comunidades, conteúdos digitais. O audiovisual está presente em praticamente todas as dimensões da experiência contemporânea, mas produzir imagens não é necessariamente produzir memória e produzir muito tampouco significa preservar.
Imagens também contam a nossa história
Quando pensamos em memória histórica, frequentemente pensamos em documentos escritos, livros, jornais, fotografias, objetos ou edifícios. Mas parte significativa da história dos séculos XX e XXI também pode ser vista e ouvida.
Podemos ouvir uma voz. Reconhecer um sotaque. Observar uma rua que já não existe da mesma maneira. Assistir a uma manifestação artística que terminou décadas atrás. Perceber os gestos, as roupas, as relações, as paisagens, as formas de trabalhar e de ocupar uma cidade.
Uma característica particular da linguagem audiovisual reside em sua capacidade de ultrapassar o mero registro de informações referentes a determinado contexto temporal. O audiovisual preserva presenças e atua também como um dispositivo de conservação e atualização de experiências, permitindo que sujeitos, acontecimentos e formas de existência permaneçam acessíveis para além do momento histórico em que foram capturados.
Uma entrevista realizada hoje pode se tornar, décadas depois, um documento fundamental para compreender uma trajetória. O registro de uma celebração popular pode guardar modos de fazer, cantar, dançar e ocupar um território. Um documentário pode registrar histórias que dificilmente encontrariam espaço nos documentos oficiais.
Nesse sentido, refletir sobre o patrimônio audiovisual implica também observar os sujeitos, grupos e experiências que são incorporados aos processos de construção da memória coletiva, bem como aqueles que permanecem ausentes ou sub-representados nesses registros. Por isso, pensar patrimônio audiovisual é também pensar quem aparece na memória que estamos construindo.
A história de um país não é formada somente pelos grandes acontecimentos registrados pelos meios de comunicação oficiais ou pelas instituições. Ela também está nas experiências cotidianas, nas manifestações culturais, nos territórios, nas histórias familiares, nos saberes transmitidos entre gerações e nas narrativas de grupos e comunidades.
Quando essas experiências são registradas, preservadas e disponibilizadas, ampliamos as possibilidades de construção, preservação e difusão da memória, criando maior autonomia de narração e de reconhecimento da própria história.
Fazer audiovisual também é fazer memória
Essa discussão ganha outra dimensão quando olhamos para a produção contemporânea.
Hoje, fazer audiovisual pode significar realizar um longa-metragem para o cinema, produzir um documentário independente, registrar um espetáculo, criar uma série, construir um arquivo de história oral ou produzir um vídeo com um telefone celular.
As transformações tecnológicas que vivenciamos nas últimas décadas modificaram profundamente os processos de produção e circulação de conteúdos. As possibilidades de produção se multiplicaram. Os meios de circulação também.
Mas algumas perguntas permanecem: quem conta as histórias? Quais histórias são contadas? Quem aparece diante das câmeras? Quem permanece fora do enquadramento? Quais imagens circulam? E quais delas serão preservadas?
Todo registro implica escolhas: qual ângulo capturar e onde colocar a câmera, para quem direcionar o microfone, o que perguntar, o que selecionar na montagem e o que ignorar.
O audiovisual não é, portanto, uma janela neutra para o passado. Ele também participa da construção das narrativas por meio das quais interpretamos esse passado. Não podemos compreendê-lo apenas como uma ferramenta de entretenimento: ele é também uma forma de produzir registros, construir narrativas e participar dos processos pelos quais uma sociedade elabora e transmite sua memória.
É justamente por isso que ampliar as possibilidades de produção audiovisual também significa ampliar as perspectivas a partir das quais uma sociedade pode construir sua memória.
O paradoxo do nosso tempo
Vivemos talvez o período mais intensamente registrado da história, em que a velocidade de produção e circulação de conteúdos marca nosso cotidiano.
Todos os dias são produzidas quantidades imensas de fotografias, vídeos, áudios e outros arquivos digitais. Temos câmeras permanentemente ao alcance das mãos e plataformas capazes de fazer uma imagem atravessar o mundo em poucos minutos.
Seria tentador concluir que estamos construindo o maior arquivo da história. Porém, se paramos para refletir, produzir mais não necessariamente significa preservar mais.
Um arquivo publicado em uma plataforma não está automaticamente preservado. Formatos tornam-se obsoletos. Equipamentos deixam de existir. Sistemas são substituídos. Contas são apagadas. Serviços desaparecem. Suportes físicos se deterioram e arquivos digitais podem se tornar inacessíveis.
A abundância de registros cria, portanto, um paradoxo: nunca registramos tanto e isso não significa que estejamos preservando mais.
Preservar exige escolha, organização, identificação, armazenamento, migração tecnológica e políticas de acesso. Exige compreender que um arquivo audiovisual não termina quando uma produção é concluída.
O patrimônio de amanhã está sendo produzido hoje
Talvez essa seja uma das questões mais importantes trazidas pelo Dia Mundial do Patrimônio Audiovisual.
Quando falamos em patrimônio, tendemos a olhar para trás. Pensamos naquilo que atravessou décadas e que agora reconhecemos como parte de nossa história, mas o patrimônio audiovisual do futuro está sendo produzido neste momento. Está nos filmes realizados hoje, nos documentários que registram personagens e territórios, nos acervos institucionais que estão sendo formados, nos depoimentos que estão sendo gravados, nos registros dos movimentos culturais e também nas pequenas produções que talvez ainda nem saibamos que serão importantes daqui a alguns anos. Isso transforma a preservação em uma responsabilidade do presente.
Não se trata apenas de recuperar aquilo que corre o risco de desaparecer. Trata-se também de pensar, desde agora, o que estamos registrando e como o estamos fazendo, como guardaremos esses materiais e quem poderá acessá-los no futuro.
Porque preservar o audiovisual é preservar mais do que filmes e arquivos. É preservar vozes e dar corpo à memória coletiva. É preservar gestos, paisagens, sotaques, músicas, conflitos, celebrações, modos de criar e maneiras de viver. É permitir que outras gerações não conheçam nossa história apenas pelo que escrevemos sobre nós, mas também possam nos ver e nos ouvir.
No Dia Mundial do Patrimônio Audiovisual, a pergunta mais importante não é somente o que conseguimos preservar do passado. É também: que memória do nosso tempo estamos deixando para o futuro?




Comentários