O poder de dar voz, nos palcos, a quem era invisível: o legado de 82 anos do Teatro Experimental do Negro


Você conhece o Bando de Teatro Olodum? Ou a Cia. Os Crespos? Coletivo Bonobando? Se esses nomes passearam pela sua mente, mas ainda não te dizem muita coisa, esse artigo com certeza vai te apresentar a muitas novidades e a um lado do teatro extremamente importante na história dessa arte no Brasil.
Esses nomes, e muitos outros, compõem hoje um panorama amplo e diversificado das companhias de teatro negro no Brasil. Elas estão espalhadas por diferentes estados, focadas em explorar novas narrativas negras nos palcos. Muitas dessas companhias nascem dentro das universidades, a partir do desejo de construir comunidades e criar trabalhos onde ver a si mesmo fosse possível:
”Se eu não me vejo, não há como me formar. Ou se abandona aquele espaço ou forjamos nossa própria educação e a utilizamos para a nossa criação artística” - Lucélia Sérgio, da Cia. Os Crespos, em matéria para a Revista O Menelick 2° Ato.

Se hoje temos uma diversidade de companhias e espetáculos com protagonismo negro, é necessário pontuar que esse movimento não surge de uma mera vontade, e sim da necessidade de criar espaços para que essas representações afirmativas pudessem existir. Na maior parte das vezes, não há portas abertas para que essas pessoas se vejam na sociedade, integradas ao cotidiano, muito menos tendo o direito de produzir uma arte que, em vez de reiterá-las enquanto meros objetos subalternizados e estereotipados, formule narrativas reais focadas em construir uma nova identidade para além do olhar externo.
O Teatro Experimental do Negro:
É dessa forma, a partir de um incômodo de Abdias Nascimento, que nasce o Teatro Experimental do Negro, em 13 de outubro de 1944, como a primeira companhia brasileira a apresentar espetáculos de valorização e protagonismo da cultura negra no Brasil. Abdias produziu um relato anos após a fundação do TEN, o artigo Teatro Experimental do Negro: trajetórias e reflexões, publicado na Revista Estudos Avançados, da Universidade de São Paulo (USP), em 2004, abordando todo o processo de construção e articulação desse movimento, em que expõe o que motivou a criação da companhia. Ao assistir à peça Imperador Jones, produzida por Eugene O’Neill, Abdias expôs o fato de o protagonista ser um homem branco com o rosto pintado de preto (blackface).
Essa prática racista não era comum apenas em espetáculos estrangeiros, como também uma espécie de requisito para as peças de teatro brasileiras que apresentassem algum tipo de representação negra considerada uma “ameaça” ou “ousada” pelas instituições. A presença do negro nos teatros era relegada a papéis de insignificância ou reforço de estereótipos e, ao questionar o motivo, Abdias propõe a criação do Teatro Experimental do Negro, tensionando e movimentando debates e ações práticas para a reeducação e reconstrução do imaginário social sobre a história e o papel do negro no país e nos teatros:
”Ao fim do espetáculo, tinha chegado a uma determinação: no meu regresso ao Brasil, criaria um organismo teatral aberto ao protagonismo do negro, onde ele ascendesse da condição adjetiva e folclórica para a de sujeito e herói das histórias que representasse” (Nascimento, 2004, p. 210).

O TEN começa os trabalhos práticos em 1945, com uma releitura da peça O Imperador Jones, dessa vez com pessoas negras nos papéis de destaque. A peça foi um sucesso. No entanto, Abdias cita dificuldades práticas tanto na continuidade das peças quanto na criação de novos enredos que abraçassem as complexidades do racismo por meio do drama. Para ele, a mera representação não era o bastante: era preciso propor a reflexão, o questionamento e despertar os incômodos sobre a realidade social das pessoas negras por meio da arte, para que outros espaços e possibilidades pudessem se abrir.

Mas a censura às peças foi uma constante durante décadas de atuação do TEN, assim como a desvalorização por parte de autoridades. É interessante observar como a censura, enquanto estratégia de silenciamento, não era imposta somente no texto. Durante toda a colonização e no período pós-abolição, até os dias atuais, a população negra brasileira passou por proibições e dificuldades de acesso ao aprendizado da leitura e escrita e, consequentemente, também teve cerceada a possibilidade de interpretação e articulação conjunta sobre suas questões e violências. Segundo matéria do portal Geledés, na década de fundação do TEN, esse cenário ainda era muito presente, com índices de analfabetismo entre a população negra brasileira em torno de 79% entre os homens e de 85,5% entre as mulheres.
Sabendo disso, uma das contras-estratégias do TEN, e o que também o destaca enquanto movimento, foi o investimento e o esforço empreendido na educação e na mobilização social dentro e fora dos palcos:
”A um só tempo o TEN alfabetizava seus primeiros participantes, recrutados entre operários, empregados domésticos, favelados sem profissão definida, modestos funcionários públicos – e oferecia-lhes uma nova atitude, um critério próprio que os habilitava também a ver, enxergar o espaço que ocupava o grupo afro-brasileiro no contexto nacional” (Nascimento, 2004, p. 211).
Além de atuar na instrução formal dos atores, o TEN articulou, ao longo dos anos, congressos e encontros para o debate sobre racismo, a editoração do jornal O Quilombo: vidas, problemas e aspirações do negro, concursos e ações cujo objetivo era expandir a presença, a prática e o pensamento intelectual negro para o cotidiano, de forma coletiva. É importante destacar também todas as pessoas que auxiliaram Abdias nessas ações, incluindo as artistas negras Arinda Serafim, Marina Gonçalves e Ruth de Souza, referenciadas na voz de Patrícia Oliveira, pesquisadora em História pela UNICAMP.

O teatro enquanto política, para além da representação
Falar do Teatro Experimental do Negro hoje, relembrando todo o seu legado de 82 anos, é continuar o trabalho iniciado por Abdias e diversos outros artistas, que talvez não imaginassem os frutos diretos da iniciativa por meio das diversas companhias de teatro negro contemporâneo, mas viam a importância de agir coletivamente no cotidiano pra que essas vozes tivessem a chance de imaginar novos futuros.
Se insistirmos em não conhecer essas companhias, ou sequer a fundação desse pensamento, caímos na armadilha muito bem pensada que permite a presença contínua no palco e na vida às mesmas narrativas e pessoas. Continuamos a deixar essas histórias à margem, passando atrás das cortinas de um espetáculo vazio, desconhecido e alheio às próprias origens.
Assim, mais do que reconhecer o trabalho passado do Teatro Experimental do Negro, esse texto também é um convite para conhecer e prestigiar as novas vozes e artistas negros que, felizmente, permeiam cada vez mais o nosso cotidiano em papéis de destaque, com novas histórias, perspectivas e desejos.

Dica cultural:
Se quiser conhecer mais da história e dos principais nomes que articularam o TEN, confira também o documentário Ecos do Teatro Experimental do Negro, de Daniel Solá Santiago, em que são reunidos relatos de diversos artistas que viveram e foram transformados por essa iniciativa.
Referências:
NASCIMENTO, Abdias do. Teatro experimental do negro: trajetória e reflexões . Estudos Avançados, São Paulo, Brasil, v. 18, n. 50, p. 209–224, 2004. Disponível em: https://revistas.usp.br/eav/article/view/9982 . Acesso em: 28 set. 2026.


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