Frevo: o ritmo e as danças que movimentam a identidade e resistência cultural de Pernambuco


O frevo surge no fim do século XIX e início do século XX como um ritmo que marca a folia, tomando as ruas com batidas agitadas e músicas que transmitem a essência do próprio nome, fazendo as cidades de Olinda e do Recife ferverem em festa durante os Carnavais e construindo parte da memória e da identidade pernambucana.

Hoje, data que marca o Dia Nacional do Frevo, é também um convite para refletir sobre as várias faces dessa manifestação cultural. O dia 14 de setembro marca o aniversário do jornalista Osvaldo da Silva Almeida, responsável por popularizar o termo "frevo". Já o dia 9 de fevereiro, celebrado em Pernambuco, marca a primeira vez que o termo foi citado na imprensa e faz referência ao momento em que o frevo recebeu o título de Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro pelo Iphan, em 2007, cem anos depois desse primeiro registro da palavra.
A origem no Carnaval de rua como símbolo de resistência
No contexto pós-abolição e de migração da população negra para os grandes centros, novas expressões culturais emergiam e se conectavam com manifestações locais, assim como ritmos musicais. O frevo começou nos desfiles de carnavais e de bandas militares e, para acompanhar as festividades, capoeiristas seguiam junto às bandas para protegê-las, já que tanto o ritmo quanto a capoeira eram expressões culturais marginalizadas e reprimidas pelas autoridades e elites, o que fez com que o frevo se tornasse uma estratégia de resistência cultural que persiste até hoje.
Com o tempo, a dança incorporou os movimentos dinâmicos e defensivos da capoeira, com a flexão dos ombros, os saltos e o uso do corpo inteiro, refletindo a memória pernambucana nas festividades.

Enquanto ritmo musical, o frevo se desdobra em três vertentes com características próprias. O Frevo de Rua é puramente instrumental, tocado por orquestras de metais e madeiras, como saxofones e clarinetes, com a base rítmica sustentada por surdo, caixa e pandeiro. O Frevo de Bloco incorpora instrumentos de corda, como violão, cavaquinho, bandolim e banjo, além de corais femininos que cantam temas voltados à beleza dos carnavais e blocos do passado. Já o Frevo Canção é a vertente cantada, com letra e interpretação.
Além de manifestação cultural, o frevo também existiu e existe enquanto espaço político e social, já que grande parte da popularização dos blocos, ensaios e críticas às falhas do poder público nas localidades onde os eventos aconteciam eram mobilizadas em jornais locais construídos pelos diretores e presidentes de agremiações, em sua maioria homens negros.
A economia criativa do frevo
Até aqui, já se entende o principal: além de ritmo musical e dança, o frevo também foi motor de mudança e resistência para a população periférica de Pernambuco. E, hoje, é também uma das manifestações que constroem a economia criativa do estado através da produção cultural.
Em entrevista ao G1, o historiador e analista de pesquisa do Paço do Frevo, Luiz Vinícius, ressalta o frevo como "sistema cultural, um modo de vida", já que todos os artistas visuais, poetas e costureiros que atuam para que essa manifestação aconteça são essenciais para que a cultura se desenvolva de forma sustentável e circular naquele território.

Com 12 anos de história, o Paço do Frevo atua na difusão e manutenção desse movimento artístico e cultural, com mais de 1,3 milhões de visitas e ações formativas a fim de perpetuar as tradições, capacitar novos artistas através exposições, cursos, oficinas e debates por meio da Escola Paço do Frevo, além de projetos como a Fábrica de Frevo, voltada à capacitação de artistas e à criação de novos produtos musicais e coreográficos.
O equipamento é vinculado à Lei Rouanet desde sua abertura, o que reforça o alcance econômico da ferramenta: no Carnaval do Recife 2026, organizado pela Prefeitura do Recife, foi contabilizado um público de mais de 3,7 milhões de pessoas, o que injetou R$ 2,8 bilhões na economia e gerou 60 mil empregos temporários, mostrando também o impacto das manifestações culturais e dos trabalhadores da cadeia criativa no desenvolvimento social.

O frevo é uma arte que nasceu da repressão e virou espetáculo movente de corpos, discursos e resistências. Celebrar o Dia Nacional do Frevo é reconhecer os diversos espaços ocupados por essa manifestação cultural e a necessidade de preservá-la, sem resumi-la apenas às festividades ou a um único momento do ano.
O frevo é história de Pernambuco, mas, antes de tudo, é principalmente resistência e identidade cultural.
Recomendações:
→ Conheça o museu Paço do Frevo: https://pacodofrevo.org.br
→ Ouça a playlist do Dia Nacional do Frevo e conheça mais desse ritmo: https://open.spotify.com/playlist/4sVB70VrqIZ1JQgWts9H8I

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