top of page

O CARNAVAL PARA OS BRASILEIROS, ASSIM COMO PASÁRGADA PARA MANUEL BANDEIRA

  • Foto do escritor: Laryssa Lima
    Laryssa Lima
  • há 4 horas
  • 5 min de leitura

Uma reflexão sobre a saúde mental produzida pelo carnaval na sociedade do Brasil


Por Laryssa Lima



O Carnaval brasileiro é, sem dúvidas, uma das expressões culturais mais significativas e imponentes do país, resultado de um longo processo histórico marcado pelo encontro entre tradições europeias, africanas e populares locais. A própria palavra “carnaval”, derivada do latim carne levare, remete às celebrações que antecediam a Quaresma cristã nas sociedades europeias, associadas à fartura alimentar antes do período de jejum. Assim, a conotação da palavra “carne” no nome da festa está ligada ao ato de consumir comida antes do período de jejum da Quaresma, e não, originalmente, a um sentido moral ou espiritual associado à ideia de carnalidade, como muitas vezes se interpreta no senso comum.


Essa lógica festiva foi trazida ao Brasil pelos portugueses entre os séculos XVI e XVII, sobretudo por meio do Entrudo, brincadeira de rua baseada em jogos com água, farinha e limões-de-cheiro, amplamente difundida entre a população, mas progressivamente alvo de críticas e tentativas de regulamentação por parte das elites e do poder público, que buscavam disciplinar os corpos e reorganizar o espaço urbano.


No século XIX, esse processo de transformação deu origem aos cordões carnavalescos, grupos organizados que desfilavam com música, estandartes e fantasias, e que, no início do século XX, evoluíram para os ranchos carnavalescos, responsáveis por introduzir enredos temáticos, carros alegóricos e estruturas mais complexas de organização. Paralelamente, práticas culturais afro-brasileiras ganharam centralidade nos centros urbanos, especialmente no Rio de Janeiro, contribuindo para a consolidação de uma estética musical e corporal própria no pós-abolição. Desse caldo cultural emergiu o samba, que se tornaria o principal eixo do Carnaval e da identidade nacional, institucionalizado a partir da criação da escola Deixa Falar, em 1928, e do primeiro concurso oficial de escolas de samba, em 1932, marco da consolidação dos desfiles competitivos ao longo do século XX.


Durante a década de 1930, o Carnaval foi incorporado ao discurso de identidade nacional promovido pelo Estado brasileiro, expandindo-se em escala e visibilidade, sobretudo com o avanço da mídia e das transmissões televisivas a partir dos anos 1970, que projetaram a festa internacionalmente. A inauguração do Sambódromo da Marquês de Sapucaí, em 1984, consolidou o modelo carioca, enquanto outras regiões desenvolveram expressões próprias: na Bahia, os trios elétricos e o axé moldaram uma festa marcada pela música amplificada e pelos blocos; em Pernambuco, o frevo, os maracatus e os bonecos gigantes preservaram tradições populares de rua. Essas diferentes configurações revelam que o Carnaval brasileiro não é um fenômeno homogêneo, mas um mosaico cultural que articula música, território e sociabilidade, reafirmando-se como uma das mais potentes expressões da vida coletiva no país.


Podemos perceber que, ao longo da história, o Carnaval deixou de ser apenas um período festivo vinculado ao calendário religioso para se tornar uma plataforma privilegiada de produção artística, memória social e afirmação identitária. A música ocupa lugar central nesse processo, funcionando como eixo de organização dos desfiles, dos blocos e das performances corporais, além de atravessar o restante do ano como patrimônio cultural e indústria criativa. Samba, frevo, marchinhas e axé configuram não apenas estilos sonoros, mas formas de narrar a história brasileira, expressar conflitos sociais, celebrar pertencimentos coletivos e produzir sentidos compartilhados. Essa capacidade de articular emoção, corpo e sociabilidade explica, em grande medida, por que o Carnaval permanece como uma das principais experiências de encontro coletivo do país, mobilizando afetos, memórias e formas de resistência cultural diante das tensões da vida urbana contemporânea.


E, em toda essa história, do início até aqui, podemos perceber o que a festa representa: alívio.


Antes do jejum da Quaresma, o Carnaval afirmava-se como tempo legítimo de extravasamento e fartura. No Brasil colonial, essa pulsão coletiva tomou forma no Entrudo, brincadeira tão vital à vida social que precisou ser regulada pelas autoridades. Após a abolição da escravidão, a festa transformou-se em palco de liberdade e reconstrução simbólica, onde um povo inteiro pôde afirmar identidades, ritmos e pertencimentos. Hoje, permanece como o intervalo precioso em que o país respira, brinca e se reorganiza antes que a rotina recomece, pois, para além do descanso e do lazer, o alívio que o Carnaval oferece converte-se em dignidade por meio do trabalho e da profissionalização de milhares de pessoas como artistas, artesãos, técnicos, músicos, costureiras e tantos outros que fazem o espetáculo existir, enquanto esses mesmos criadores encontram, na explosão estética da festa, a possibilidade de expandir suas linguagens e devolver à sociedade beleza e sentido, fazendo do Carnaval, em todos os seus aspectos, o alívio profundo de que o corpo e a mente brasileiros necessitam para seguir em frente.


O Carnaval é para os brasileiros como Pasárgada era para Manuel Bandeira: a necessidade de um lugar de alívio fora da realidade, que quase sempre é dura e insensível. É a nossa saúde mental desejando refresco e possibilidades infinitas que a vida real cotidiana nos impede.


Manuel Bandeira, um dos principais poetas do Modernismo brasileiro, já passou por isso, por essa sensação de necessidade do que a dura realidade não lhe oferecia, e isso fez com que ele escrevesse um dos mais belos poemas da literatura brasileira, que se chama “Vou-me embora pra Pasárgada”. Quando Bandeira tinha 16 anos, ele estudava sobre os gregos e encontrou a palavra Pasárgada, que era uma cidade de veraneio dos persas. Ele ficou tão encantado com essa palavra que começou a imaginar como seria esse lugar.


Mais de 20 anos depois, ele passou por um momento de desânimo e tristeza e, em meio ao tédio, emergiu do seu interior a expressão “Vou-me embora pra Pasárgada”, mas o poema ainda não estava pronto. Cinco anos depois dessa experiência, ele disse que o poema então veio à tona. Quando questionado sobre como o compôs, Bandeira disse que não construiu o poema: o poema se construiu dentro dele.


Desde sua publicação, Pasárgada se tornou um símbolo de cidade ideal, onde reina perfeita paz, harmonia, amor, felicidade, onde não há tristeza, dor ou sofrimento. Pessoalmente, gosto muito de ouvir as reflexões do Zé Bruno, lá de Alagoas, que, um dia desses, fez uma ligação sobre os criadores e seus desejos em suas criações — como Bandeira chama seu ideal de Pasárgada, C.S. Lewis chama de Nárnia, Lewis Carroll chama de Oz, e John Milton chamava de Utopia, que é uma palavra que significa “não-lugar”: um lugar que, de acordo com Milton, não existe, mas que existe. Eduardo Galeano, pensador latino-americano, disse que a utopia está lá na frente e nós estamos atrás; quanto mais nos aproximamos dela, mais ela se distancia. Então ele perguntou: “Para que serve a utopia?”. E respondeu: “Para nos fazer caminhar.”


Tenho para mim que o Brasil, em sua imensidão, criou sua própria utopia, seu próprio jeito de não ficar parado, de reagir para além da própria realidade, construindo dentro de si uma vivência que ecoa como um grito em nome de sua própria sanidade. É possível compreender o Carnaval como uma engrenagem simbólica fundamental na preservação do equilíbrio psíquico coletivo no Brasil, uma prática cultural que, ao longo dos séculos, tem permitido à sociedade transformar tensões estruturais em expressão artística, convivência e movimento.


Em um país marcado por desigualdades persistentes, instabilidades econômicas e intensas pressões cotidianas, a festa opera como um território temporário de suspensão da dureza da realidade, onde o corpo pode dançar, a voz pode cantar e os afetos encontram vias legítimas de circulação. Ao reunir música, trabalho criativo, pertencimento comunitário e imaginação social, o Carnaval converte-se em uma forma popular de cuidado coletivo, capaz de oferecer sentido, dignidade e respiro emocional a milhões de pessoas, não como fuga ingênua, mas como estratégia cultural de sobrevivência e reorganização em um ritual anual pelo qual o Brasil, em toda a sua diversidade, reaprende a existir com mais leveza, coesão e esperança.


 
 
 

Comentários


CULTURA EM MOVIMENTO

  • email amarelo
  • youtube amarelo
  • facebook amarelo
  • linkedin amarelo
  • instagram amarelo
  • tiktok

©2024 por IC CULTURA.

bottom of page