O BRASIL É O ÚNICO PAÍS QUE RECEBEU DOIS TÍTULOS DE INICIATIVAS DE REFERÊNCIA DA RESTAURAÇÃO MUNDIAL. MAS, O QUE A CULTURA TEM A VER COM ISSO?


O segundo título foi conquistado durante um evento na 17ª sessão da Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, que ocorreu em agosto deste ano, em ULAANBAATAR, na Mongólia, com o reconhecimento da iniciativa Araticum - Restauração do Cerrado Brasileiro.
Impulsionados pelo PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) e pela FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), no âmbito da Década da ONU da Restauração de Ecossistemas, os prêmios visam reconhecer iniciativas de restauração de ecossistemas mais promissoras e que gerem impacto real.

Fabrícia Santarém, coordenadora da Araticum e coletora de sementes Geraizeira recebeu o Prêmio | Foto: Carol Sacramento/Araticum
Araticum é uma das 30 iniciativas de restauração reconhecidas pela ONU desde 2022. Juntas, essas 30 somam quase 20 milhões de hectares em processo de regeneração e abrangem compromissos para restaurar cerca de 75 milhões de hectares até 2030. E não é só de restauração ambiental que estamos falando: iniciativas como estas fomentam mais de 800 mil empregos, além de contribuir para a recuperação e o aumento das espécies nativas.

📷 Todd Brown/UNEP
Com mais de 2 milhões de quilômetros quadrados, o segundo maior bioma em extensão territorial, depois da Amazônia, perdeu mais da metade de sua vegetação nativa, principalmente por conta da conversão de terras em grande escala.
Assim, o projeto já mapeou mais de 27 mil hectares em processo de restauração e, até 2030, pretende alcançar o marco de 2 milhões de hectares, contribuindo com o compromisso do Brasil de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa.
Araticum reúne mais de 180 organizações, contando com a colaboração de povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais, agricultores, pesquisadores, instituições governamentais e privadas, além da própria sociedade, para desenvolver projetos que têm como objetivo a regeneração do Cerrado em 9 estados do país.
O processo é tecido a partir da regeneração natural do bioma, da semeadura direta, da restauração ecológica e de sistemas agroflorestais com espécies nativas da região.

📷 Todd Brown/UNEP
O Cerrado é um bioma que se estende por todas as regiões do Brasil, abrangendo fortemente a região Centro-Oeste. Por mais que vejamos a cultura geralmente como manifestação de atividades artísticas, a partir das artes cênicas, da música, das artes visuais e do audiovisual, entendemos, cada vez mais, que todas estas manifestações contextualizam histórias e memórias tecidas nos territórios.
Então, mesmo que indiretamente, mas, na verdade, nunca indiretamente, cada bioma conta sua história através das manifestações culturais e patrimônios que são tecidos nos territórios, a partir da simbiose humano-natureza. Constrói-se, naturalmente, uma sustentabilidade fomentada pela cultura; ambas se catalisam mutuamente. E salvaguardar estas culturas tradicionais resulta na garantia de segurança jurídica e conservação ambiental dos biomas e de suas biodiversidades.
Porém, o segundo maior bioma nacional e a savana mais rica do mundo em biodiversidade, junto da Caatinga, ainda não são formalmente reconhecidos enquanto patrimônios nacionais. Atualmente, como consta na Constituição de 1988, apenas a Amazônia, a Mata Atlântica, a Serra do Mar, o Pantanal e a Zona Costeira são considerados patrimônios nacionais.
Como de costume, ignoramos a importância imensurável de um bioma nacional até que seu valor seja reconhecido, primeiramente, no exterior.
Além de ser o bioma que acolhe a maior biodiversidade do mundo, o Cerrado também é conhecido como “berço das águas” por conter em sua extensão três maiores bacias hidrográficas da América do Sul: Tocantins, São Francisco e do Prata.
“Várias comunidades tradicionais habitam o Cerrado, como quilombolas, indígenas e geraizeiros, entre outras, que possuem amplo conhecimento do território, seus recursos, sua fauna e flora e que, durante séculos, conservaram e administraram sua riqueza biológica e a sua paisagem deslumbrante.”
Reserva da Biosfera do Cerrado

Foto: Todd Brown / PNUMA
Para que um bioma seja regenerado e sua extensão e biodiversidade restaurada, é preciso que as tradições não sejam esquecidas ou apagadas. É aí que entra, diretamente, o papel da cultura e dos mecanismos que visam proporcionar seu fomento no país.
Para que o ofício das Raizeiras e Raizeiros do Cerrado seja perpetuado de geração em geração, para que iniciativas como a Araticum existam, é preciso legitimar e salvaguardar o patrimônio imaterial que aviva a teia social, ambiental e territorial.

Foto Rede Cerrado: a raizeira Lucely Moraes Pio faz parte do movimento surgido em 1999, que reúne saber tradicional com preservação ambiental
Projetos como “Processo de instrução técnica para o registro do Ofício de Raizeiras e Raizeiros do Cerrado como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil”, realizado em parceria com o IPHAN, objetivavam impulsionar o conhecimento sobre as práticas das raizeiras e raizeiros do Cerrado, a fim de legitimar o ofício como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.
Outro exemplo é o grupo Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro, criado há mais de 20 anos, que se tornou patrimônio cultural imaterial do Distrito Federal em 2024.

O mestre do movimento, Tico Magalhães, descreve que o objetivo da criação do grupo é o de contar como o Cerrado foi criado, através da mitologia e dos encantados que fazem parte do bioma.
“É dessa forma lúdica, com apresentações, festejando e tocando, que o movimento pretende conscientizar as pessoas que habitam o bioma sobre a sua importância.”
Seu Estrelo: festejar figuras do Cerrado para exaltar o bioma por meio da cultura, 2024
Portanto, por mais que achemos que meio ambiente, conscientização e preservação ambiental e atividades comunitárias nada têm a ver com a cultura, mais uma vez, fomos driblados pelo capitalismo, que reverbera o dualismo cartesiano de Descartes. Corpo e mente, apartados, são entendidos como entes independentes, assim como esta ideia fomentou também o dualismo entre humanidade como sujeito e natureza como objeto.
Segundo o Painel de dados da Lei Rouanet, exposto no site do Prosas, a região Centro-Oeste, que abrange em sua totalidade o bioma, possui 470 projetos aportados, do total de 14.184, sem filtrarmos por região, sendo a segunda maior porcentagem quando olhamos para o valor do aporte por unidade federativa do patrocinador, com 31,6% aportados. Porém, quando analisamos o valor do aporte por unidade federativa do proponente, o quadro é invertido, colocando a região em quarto lugar, com 3,1% aportados, ficando à frente apenas da região Norte.
Quando ativamos o filtro para a área cultural Museus e Memória e para a região Centro-Oeste, vemos, atualmente, 12 projetos, dos 506 totais que compõem a área cultural para todas as regiões.
Já quando filtramos apenas a região Centro-Oeste, vemos que a menor concentração de aportes é justamente direcionada para esta área cultural (6,9 milhões), sendo a área Música, em contraposição, a que recebe a maior quantidade de aportes (130 milhões).
Em quarto lugar nos aportes, vemos a área cultural Patrimônio Cultural, com 55,3 milhões. A área é responsável por abarcar projetos de restauração, catalogação, digitalização de acervos, exposições de memória e salvaguarda de manifestações culturais.

Foto: Todd Brown / PNUMA
Iniciativas reconhecidas e premiadas como a Araticum expressam que a regeneração da memória e do fazer tradicional, é o que salva e regenera um território; é o que, de fato, o reaviva, em todos os sentidos que essa palavra pode alcançar. E não há nada mais cultural do que isso.
Quando a recuperação do território se dá a partir da semeadura direta, por exemplo, a partir da muvuca de sementes - técnica que mistura dezenas de espécies nativas para restaurar áreas degradadas de forma eficiente e de baixo custo -, ou quando é aplicado o sistema agroflorestal com espécies nativas, a inovação é circular; ancestral.
Essa memória, que permite iniciativas como essa impactarem concretamente a regeneração de uma extensa área do território, pode e deve ser, também, propulsora de conscientização social e ambiental dos habitantes de seus próprios territórios, relembrando-os de que são, junto do meio, um só corpo e um corpo muito mais forte. A memória que regenera o território pelo afeto e pela ação pode e deve ser avivada pela comunidade, pelo reconhecimento e proteção ambiental e jurídica do território, mas também através de atividades de conscientização e educação por meio de ações e equipamentos culturais.
FONTES:
ARATICUM. Muvucômetro: avaliando o potencial das redes de sementes. 11 mar. 2025.
INSTITUTO DE ESTUDOS BRASILEIROS (IEB). Processo de instrução técnica para o registro do Ofício de Raizeiras e Raizeiros do Cerrado como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. IEB.
INSTITUTO DE PESQUISA AMBIENTAL DA AMAZÔNIA (IPAM). Seu Estrelo: festejar figuras do Cerrado para exaltar o bioma por meio da cultura. 16 set. 2024.
INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL (ISA). ONU reconhece iniciativa brasileira Araticum como Referência da Restauração Mundial. 26 ago. 2026.
MUSEU DO CERRADO. Cerrado, patrimônio nacional. Museu do Cerrado, 2026.
PROSAS. Lei Rouanet: painel de dados. Prosas. Disponível em: Painel da Lei Rouanet.
RESERVA DA BIOSFERA DO CERRADO. Reserva da Biosfera do Cerrado. Reserva da Biosfera do Cerrado, 2026.




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